top of page

ESSA LADEIRA? QUE LADEIRA É ESSA?

Atualizado: 30 de mar. de 2023

Por Alfons Altmicks


Hoje, dia 29 de março de 2023, a cidade do São Salvador da Bahia de Todos os Santos, conforme nominada em pia, completa 474 anos. Como singela homenagem, quero falar sobre as suas ladeiras coloniais – em especial, sobre a formidável Ladeira da Preguiça. Há alguns meses, tive a honra de orientar dois queridos especializandos do Curso de Liderança Estratégica em Cultura da Paz, Mayra Sesti Paz e Sebastião Gomes Brito, membros do Rotary Club, que construíram um incrível projeto de intervenção na Ladeira da Preguiça. Terminei sendo contaminado pela paixão dos dois e me interessei por esse que é um dos sítios históricos mais importantes de Salvador.


O sítio da Preguiça está localizado no entorno da ladeira homônima. É composto pela Rua do Sodré (trecho da Gameleira até o Beco de Ruth), por um pedaço da Ladeira de Mauá, pelo Beco da Califórnia e pelo Baixio da Ladeira da Preguiça. Todo o sítio pertence ao Centro Histórico de Salvador (CHS), região tombada, em 1985, pelas Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), como Patrimônio da Humanidade – muito embora a Preguiça não receba a mesma atenção que outros trechos do CHS, como o Pelourinho, o Carmo e o Santo Antônio Além do Carmo.


Imagem: croqui da Cidade do São Salvador da Bahia de Todos os Santos, em 1624, autoria desconhecida.

Fonte: http://salvadorhistoriacidadebaixa.blogspot.com/2014/04/


Consta que a Ladeira da Preguiça é a segunda mais antiga via de ligação entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa, cortando a falha geológica natural de Salvador. Concebida como uma cidade fortaleza, ao estilo europeu, aproveitando o acidente geológico da Falha Soteropolitana como ponto de defesa natural para as suas edificações, Salvador já nasceu cingida entre Alta e Baixa. Constringida entre o Morro do Gólgota (atual Carmo) e o Paço da Casa de Câmara (atual Praça Municipal), a recém-nascida cidade seiscentista tinha o despenhadeiro à frente (lado da Baía de Todos os Santos) e o Rio das Tripas ao fundo (onde hoje se localiza a Baixa dos Sapateiros). Assim, Thomé de Souza, primeiro Governador Geral e fundador da Cidade, esperava defender o sítio contra invasões europeias (pelo mar da Baía) e contra as invasões indígenas (por terras continentais).


A necessidade de ligar a Cidade ao recém construído aterro do Porto e à Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, ambos projetos de Thomé de Souza, fez com que o governante se decidisse por abrir as primeiras ladeiras de ligação entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa. A primeira ladeira dentro dos limites estritos da antiga Salvador data da fundação da cidade, 1549. Trata-se da Ladeira da Conceição, ligando o Porto ao Portão Sul da Cidade. Essa ladeira primaz teria sido aberta para facilitar a construção de Salvador. Do mesmo ano, mas localizadas fora dos limites da cidade seiscentista, nasceram a Ladeira da Água Brusca e a Ladeira do Canto da Cruz.


Algum tempo depois, com o aquecimento do fluxo entre o Porto e a cidade, foram abertas a Ladeira do Taboão e a Ladeira da Preguiça. Entre a Ladeira da Conceição e a Ladeira da Preguiça, ficavam instalados, no início do Século XVII, os famosos guindastes de mercadorias do Porto de Salvador.


Imagem: guindastes de mercadorias do Porto de Salvador, 1625. autoria desconhecida.

Fonte: http://www.bahia-turismo.com/salvador/igrejas/conceicao-praia.htm


É preciso entender a centralidade da Ladeira da Preguiça, no auge da Salvador colonial. A cidade permaneceu constrita à Região do Centro, no período entre a segunda metade do Século XVI e o Século XIX. Nesse intervalo, as ladeiras concentraram o fluxo arterial de comércio e renda, ligando a Cidade Alta ao mar (por onde a cidade era abastecida).


Pelas ruelas íngremes da Preguiça, passavam, diariamente, os comerciantes, vindos das suas residências na Cidade Alta para os seus negócios na região comercial da área portuária. Transitavam também os vendedores, cumprindo importante função de municiar as casas de itens, uma vez que quase inexistiam mercearias ou pequenos comércios de rua. Tudo era vendido de porta em porta, a partir das ladeiras.


Especialmente, os paralelepípedos da Preguiça eram cumpridos pelo populacho, pela arraia-miúda, pelos desvalidos. Escravizados transportando mercadoria, trabalhadores de ganho e esmolés dividiam o espaço da ladeira da Preguiça com os altos comerciantes do Porto, com os ricos cerealistas com os funcionários públicos da alfândega, num compartilhar democrático do espaço público, ainda que profundamente desigual.


No sítio da Preguiça e no seu entorno, não apenas eram conviventes pobres e ricos, brancos e pretos, cativos e libertos, brasileiros e estrangeiros, como o próprio equipamento arquitetônico apresentava essa pluralidade, típica da cidade. Durante o período colonial, quedavam-se, ao lado de elegantes sobrados – hoje, demolidos ou em ruínas –, residências simplórias, denunciando o pequeno poder aquisitivo dos seus proprietários. Entremeando palacetes e casebres, havia muitos comércios.


Até a metade do Século XIX, essa foi a disposição socioespacial da Preguiça. A partir de então, diante da acelerada urbanização da cidade e das significativas mudanças no estilo de vida dos seus habitantes, as ladeiras entraram em decadência.


Imagem:fotografia do Baixio da Ladeira da Preguiça, década de 1930. Autoria desconhecida.

Fonte: http://lcfaco.blogspot.com/2015/04/ladeira-da-preguica-salvador-bahia.html


A segunda metade do Século XIX e o início do Século XX reconfiguraram completamente a cidade de Salvador. De uma cidade francamente inspirada na lógica das cidades-fortalezas medievais da Europa, a Cidade, aos poucos, foi se tornando uma capital urbanizada, com infraestrutura ousada, ostentando a típica descentralidade das metrópoles modernas.


A presença dos ingleses, no seu ímpeto capitalista, fez ampliar o porto da cidade, exigindo novas formas de transportar mercadorias. Surgiram os vagões coletivos, puxados por muares, exigindo o alargamento das ruas tortuosas da cidade. As ladeiras coloniais – Preguiça, Conceição, Taboão – não comportavam o fluxo das rodas; para substituí-las, foi aberta, em 1878, a Ladeira da Montanha, alargada e ornada com refinado calçamento.


Para o fluxo de gente, os planos inclinados e o Elevador Lacerda foram criados, muito mais afeitos ao ritmo frenético da máquina, que substituía o caminhar lento dos homens. As antigas freguesias, que abrigavam todas as tezes e todos os bolsos, deram lugar aos bairros isolados, redutos de classes específicas, acabando com a heterogeneidade dos equipamentos públicos. O espaço uno e acolhedor da cidade foi tomado por fragmentações, contrapondo bairros nobres e aglomerações pobres.


Nas primeiras décadas do Século XX, veio a reforma urbanística de J. J. Seabra – inspirada na Paris de Le Corbusieur –, engolindo vorazmente a arquitetura colonial do Centro da Cidade, para dar passagem aos bondes, aos postes de energia elétrica, ao incipiente esgotamento sanitário da cidade. Em 1917, enfim a Avenida 7 de Setembro passava a sangrar a borda da Cidade de São Salvador.


Abandonada pelo novo dínamo econômico da cidade, a Ladeira da Preguiça entrou em decadência, passando a abrigar, quase que exclusivamente, os réprobos e os desvalidos. Surgiram os famosos “castelos” da Preguiça, com as suas cortesãs negras, mestiças e “polacas”, instadas por cafetinas de falso sotaque francês. No sopé da ladeira, as casas de cartomancia, prometendo adivinhas e trabalhos espirituais. Os imponentes sobrados tornaram-se “cortiços”, alugados e loteados – ou invadidos –, para abrigar famílias com pouca ou nenhuma renda. Do esfuziante comércio do sítio da Preguiça, sobreviveram apenas as pequenas quitandas, os tabuleiros, os brechós.


O franco processo de favelização da Preguiça provocou o desinteresse pelos seus prédios, uma vez que os proprietários originais não entendiam como rentável a manutenção dos equipamentos arquitetônicos coloniais do bairro. Como consequência, muitos sobrados, antes imponentes, ruíram, dando espaço a terrenos fantasmagóricos, nos quais, mendigos e toda a sorte de fugitivos se abrigavam.


Em 2015, influenciados pelo Movimento Nosso Bairro é 2 de Julho, que aglutinou a população do bairro homônimo na luta contra a gentrificação, promovida pela especulação imobiliária no Centro da cidade de Salvador, os moradores da Preguiça se articularam para a fundação do Centro Cultural Que Ladeira É Essa?, tendo à frente da gestão o líder comunitário e artista plástico, Marcelo Torres.


Nessa época, os moradores do Sítio da Preguiça começaram a se sentir ameaçados pela expansão da Bahia Marina, cuja voracidade pretendia engolir a Praia da Preguiça, único espaço de lazer da população pobre da região. Iniciando um movimento de reação, o Centro Cultural Que Ladeira É Essa? passou a interferir na estética das fachadas residenciais da Ladeira da Preguiça, incendiando de cores a localidade, através do Projeto (Re)Tintas.


Imagem: Casario atual da Ladeira da Preguiça, foto de Antonello Veneri.

Fonte: https://amlatina.contemporaryand.com/pt/places/que-ladeira-e-essa-cultural-center/


Com o embelezamento das casas, a autoestima dos moradores foi revitalizada, provocando o empoderamento da comunidade. Ao mesmo tempo, as cores da Preguiça sinalizam, para os de fora, que a ladeira não está abandonada e depreciada. Movido pelo projeto de pintura das fachadas, o Centro Cultural Que Ladeira É Essa? entabulou parcerias, importantes para a consecução de outras ações sociais, como a implantação de um núcleo profissionalizante na comunidade, em parceria com o Rotary Club (através do Núcleo Rotary de Desenvolvimento Comunitário, já consolidado na comunidade) e o surgimento de diversas propostas de educação para o empreendedorismo, voltadas para as mulheres da comunidade (com o auxílio do SEBRAE).


A Ladeira da Preguiça, hoje, constitui um oásis de criatividade, resistência e civilidade, demonstrando o poder da comunidade para revitalizar espaços públicos condenados pelo preconceito e pelo descaso do Poder Público. Que o seu exemplo seja seguido por outros sítios históricos de Salvador, essa cidade tão linda e tão maltratada pela desigualdade, pela usura e pelo preconceito contra pretos e pobres.

392 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Coluna: Adeus, Gracinha!

Alfons Altmicks Diretor de Ensino e Extensão O ano exato, não sei precisar. Eu devia ter algo entre 7 ou 8 anos, o que nos coloca no final da década de 1970 ou início dos 80’s. Ela entrou – falante, e

COLUNA: “LOUVADO SEJA O NOSSO SENHOR, JESUS CRISTO!”

Alfons Altmicks Diretor de Ensino e Extensão da Escola Baiana de Comunicação No último dia 21 de outubro, vivemos um dia histórico, com a primeira aula da Escola Baiana de Comunicação. Na ocasião, por

Comments


bottom of page