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COLUNA: “LOUVADO SEJA O NOSSO SENHOR, JESUS CRISTO!”


Alfons Altmicks

Diretor de Ensino e Extensão da

Escola Baiana de Comunicação



No último dia 21 de outubro, vivemos um dia histórico, com a primeira aula da Escola Baiana de Comunicação. Na ocasião, por conta da imensa generosidade do meu amigo querido, Prof. Marcello Chamusca, que ministrava o curso inaugural de “Diversidade nas Organizações”, tive a prerrogativa de participar desse lindo momento, compondo uma pequena intervenção sobre Etnocomunicação. Como esse é um conceito ainda pouco conhecido no campo da Comunicação Social, entendi de colocar a coisa toda na forma de exemplo. Assim, contei um causo do Sertão...


Certa feita, lá pelas bandas do Abaré, norte da Bahia, fui visitar uma comunidade quilombola residual, chamada Pejuí, à época, ainda não reconhecida pela Fundação Palmares – mas que, posteriormente, seria realocada para o Quilombo do Curral das Pedras, com vistas ao reconhecimento. Era coisa miúda, de duas ou três famílias assentadas, roça e curral. Como é longo o trecho entre Salvador e a divisa do Ibó, chegamos de tardezinha, o Sol já amainando. Um descampado que só. Não se via viva alma. Resolvemos, então, chamar em uma das casas. “Ô de casa!” – clap, clap, clap. – “Viemos ver Seu Evilásio!” (líder do grupo assentado). Ninguém respondia. E cuidamos de chamar de novo; e, de novo, nada. Já quase desistindo, Tonho, nosso mateiro, teve uma epifania: “Louvado seja o Nosso Senhor, Jesus Cristo!”. De dentro da casa, uma voz respondeu: “Para sempre seja louvado!”. E a porta se abriu.


É costume antigo, no Sertão, usar a louvação a Jesus Cristo ou a Nossa Senhora como medida protetiva (contra a maldade dos vivos e contra o agouro das visagens). Eu, menino criado no vai-e-vem das marés do Recôncavo, sequer supunha a tradição. Aprendi e usei, conforme o trato. Anos depois, nos tempos do finado Orkut, qual não foi a minha surpresa em me deparar com Seu Evilásio na rede social? Animado, mandei mensagem, fazendo gosto do encontro. Passou um dia, outro, um terceiro, uma semana... e nada de resposta. Atribuí à dificuldade de conexão, porque, naquela época, não havia banda larga, a gente conectava com dial e luz de candeeiro. Até que me deu um estalo! E se... corri para o computador e digitei a mensagem “Louvado seja o Nosso Senhor, Jesus Cristo!”. Em menos de um dia, chegou a resposta, “Para sempre seja louvado! Tudo bem, professor?”.

Isso é Etnocomunicação. Reparem que não se trata de uma simples apropriação, de um mero “fazer uso” dos processos e das tecnologias urbanas. A Etnocomunicação não se reduz à incorporação do conforto da vida citadina ao ambiente rural. Mais do que isso, representa a assimilação e a ressignificação do know-how próprio da cidade pelo estilo de vida das populações etnicamente diferenciadas, de maneira a preservar-lhe a integridade, a autonomia e a tradição. Assim, ao usar a louvação como “senha” de mensagem no Orkut, Seu Evilásio se resguardava das más intenções alheias – inclusive, espiritualmente –, ao tempo em que garantia que o seu interlocutor fosse conhecido, porquanto conhecedor dos códigos culturais do Pejuí.


Pensando aqui comigo, é mesmo esperado que o uso das tecnologias e dos processos contemporâneos, por parte de grupos etnicamente diferenciados, cause estranheza a quem tenha pouco ou nenhum contato com culturas não-urbanas. Há que se compreender que os caminhos de legitimação étnica, em um país racista e elitista, como o Brasil, são conflituosos e geradores de violências das mais variadas naturezas, inclusive – e sobretudo – as culturais. Obviamente, quilombolas, indígenas, ciganos, beradeiros e comunidades de fundo de pasto não vivem isolados da sociedade de entorno. Por esse motivo mesmo, desenvolvem estratégias de convívio e de proteção, que passam pela incorporação de tecnologias e processos urbanos, embora com escopos ancorados nas suas culturas e nos seus hábitos.


Nos territórios etnicamente diferenciados, características urbanas, como a onipresença dos celulares, das motocicletas, das antenas parabólicas, dos aparelhos de rádio e de TV, foram assimiladas e ressignificadas, para atender às necessidades e aos costumes das comunidades, cujas cosmovisões são legitimadas pelos conhecimentos tradicionais, que, em si mesmos, permanecem intocados e incontestes. Essas cosmovisões mantém as identidades étnicas, mesmo diante dos incrementos do mundo urbano. E isso traduz a grandeza e a beleza da Etnocomunicação, no seu estado mais puro.


Hoje, depois de mais de duas décadas atuando com populações tradicionais no Semiárido Baiano, aprendi a lição de João Cabral de Melo Neto, segundo a qual, “[...] as palavras de pedra ulceram a boca / e no idioma pedra se fala doloroso [...]”. No meu Sertão de pele escura, maltratado e desvalido, fala-se pouco; desconfia-se em demasia. É justo e judicioso, diante de tão pouca palavra e de olhos sempre atentos, que eu não faça distinção de meio. Seja em conversa, em missiva ou no Whatsapp, só preciso – e desejo – um “Louvado seja o Nosso Senhor, Jesus Cristo”, ao qual apenas respondei: “Para sempre seja louvado”...


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